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Sobrecarga virou senso de utilidade?

  • Foto do escritor: Paula Negri
    Paula Negri
  • 9 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Nos últimos tempos tenho reparado em algo que me intriga: a forma como muita gente — e às vezes eu também — associa o estar ocupado com o sentir-se útil. Parece que existe uma necessidade quase inconsciente de estarmos sempre fazendo algo, preenchendo cada minuto com tarefas, reuniões, mensagens, entregas. Como se o simples fato de estarmos ocupados fosse uma prova de que estamos “no caminho certo”, sendo produtivos, importantes, relevantes.


Essa semana li uma reportagem que falava justamente sobre isso: sobre o quanto a nossa sociedade valoriza a sobrecarga, como se ela fosse uma espécie de medalha de honra. E confesso que parei pra pensar no quanto isso é verdadeiro. Quantas vezes a gente responde “nossa, tô na correria!” com um certo orgulho no tom da voz, como se estivéssemos dizendo “olha como sou necessário”?


Mas será que é mesmo por aí? Será que precisamos estar sempre exaustos para sentir que somos úteis? Será que o valor que entregamos está realmente atrelado à intensidade com que nos desgastamos?


Talvez estejamos confundindo movimento com propósito. E, no meio dessa correria, perdendo justamente o que dá sentido ao que fazemos. Porque estar ocupado nem sempre significa estar realizando algo que importa. Às vezes significa apenas estar fugindo — do silêncio, da pausa, do tempo que sobra e que nos confronta com nós mesmos.


O ócio, tão subestimado, é também um espaço de construção. É nele que as ideias se organizam, que a criatividade respira, que o corpo e a mente se alinham. É no ócio que a gente se escuta. E talvez seja justamente essa escuta que esteja em falta — essa capacidade de ficar sozinho com os próprios pensamentos sem precisar de uma agenda cheia para sentir que vale a pena existir.


É sobre compromisso genuíno e equilíbrio. Utilidade é sinônimo de presença intencional. Estar em pausa é ser produtivo de forma plena, estando presente. Ser útil significa escolher ser necessário nos momentos certos, para as pessoas certas.


O desafio dos próximos tempos é cultivar essa presença com leveza e reaprender a habitar o espaço com clareza. Porque é a consciência com que escolhemos o que fazer — e o que priorizar — que define nosso verdadeiro valor.


 
 
 

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